Tens em ti o peso do mundo…
Entraste em minha casa não sei bem como, talvez com a ajuda de um raio de sol que atravessava sofregamente as brechas das persianas entreabertas do meu quarto. Quando acordei, estavas sentada ao fundo da minha cama, num pequeno quadrado alvo de lençol, tomada pela dor de não sentires, tomada pela dor de não seres. Perguntei-te:
- Sabes quem és?
- Sei que te amo, mas não sei quem sou. Perdi-me, perdi tanta coisa que não sei o que é existir. Mas deixei de sentir, deixei de ver. Ajudas-me?
Levantei o tronco do colchão, recuei a anca e as pernas, encostei as costas à cama. Liguei a luz. Tinhas os olhos carregados de lágrimas, cabelos claros embrenhados, sujos de terra e uma roupa de que não me recordo. Mas estavas descalça, disso lembro-me bem… tinhas os pés ensanguentados, como me poderia esquecer? Sem me mexer do meu lugar, ainda impressionado, ainda sem ideias, perguntei-te:
- Quem te feriu os sentidos?
- Foi o sol, foi o sol! foi o sol... Ontem, olhando-lhe para a auréola negra, descobri a verdade, descobri que o luar me engana consecutivamente, indicando-me um caminho que não é o meu nas noites de breu… descobri que a água do mar não me salga a vida nas manhãs lânguidas que passo desterrada no meu quarto e me mim…
Então, fixastes os olhos em mim, raiados pela odisseia de uma vida estrangulada, de uma vida em sangue. Rangestes os dentes, cerrastes os punhos e, estranhamente, parecias levitar. Apesar de tudo. Apesar da vida, apesar dos elementos que te compõem, apesar da cidade que te acolhe. De repente, e sem nada que o sustentasse ou deixasse antever, deixaste-te tombar as costas no colchão e sorriste. Sorriste como sorriem as crianças, desprevenidas e desesperadas, por não conseguirem conter a verdade que encerram. Não resisti e novamente te lancei uma questão, ainda imóvel, ainda quase absorto:
- Que é do rio que em ti corria?
Esgaçaste um riso fundo, gutural e perdeste o olhar. Soltaste duas gargalhadas inquietantes, respondendo-me:
- Ainda corre! Queres ver?
Acedi. Desterrei-me dos lençóis e dirigi-me para a tua beira. Estendi-te as duas mãos, lançaste-me as tuas. Agarrei-as e puxei-te para cima até estares novamente sentada. Beijei-te a testa, como se te respeitasse. Notei que a tua testa estava fria, dorida, incauta. Tremias. Disse-te:
- Vou buscar-te um cobertor.
Acedestes. Caminhei lentamente para a outra ponta da casa, na mala onde a minha avó guarda os cobertores e agasalhos. Escolhi um que me parecia o mais suave mas o mais envolvente. Dirigi-me ao quarto.
Quando lá cheguei, tinhas desaparecido, não havia um rasto físico que revelasse onde tinhas ido, como te tinhas arrastado para fora da minha casa. Tudo estava exactamente como eu o deixara. Mas tinha a certeza que tinhas passado por ali, ainda conseguia descortinar o teu sorriso demente na janela que te enquadrava nos raios de sol matinais, o teu corpóreo perfume ainda marcava a tua presença naquele quarto. No entanto…
Nunca mais te vi. Partiste da minha vida tão silenciosamente como apareceste. Ainda hoje não sei porque me marcaste, ainda hoje não sei se te amei. Sei que te possuí, sei que fui teu e dos dois nada mais reconheço. Conheci-te a vida como ninguém, mas não imagino o que te terá acontecido. Todos os que te sabiam parecem não se lembrar do teu rosto, da tua voz, a tua maneira de andar… Ninguém te pode ajudar!
Hoje não sei se desapareceste da minha vida ou se morrestes nos meus braços. Digo isto porque às vezes sinto o peso do mundo nos meus braços e só tu tens todo o peso do mundo em ti…
- Sabes quem és?
- Sei que te amo, mas não sei quem sou. Perdi-me, perdi tanta coisa que não sei o que é existir. Mas deixei de sentir, deixei de ver. Ajudas-me?
Levantei o tronco do colchão, recuei a anca e as pernas, encostei as costas à cama. Liguei a luz. Tinhas os olhos carregados de lágrimas, cabelos claros embrenhados, sujos de terra e uma roupa de que não me recordo. Mas estavas descalça, disso lembro-me bem… tinhas os pés ensanguentados, como me poderia esquecer? Sem me mexer do meu lugar, ainda impressionado, ainda sem ideias, perguntei-te:
- Quem te feriu os sentidos?
- Foi o sol, foi o sol! foi o sol... Ontem, olhando-lhe para a auréola negra, descobri a verdade, descobri que o luar me engana consecutivamente, indicando-me um caminho que não é o meu nas noites de breu… descobri que a água do mar não me salga a vida nas manhãs lânguidas que passo desterrada no meu quarto e me mim…
Então, fixastes os olhos em mim, raiados pela odisseia de uma vida estrangulada, de uma vida em sangue. Rangestes os dentes, cerrastes os punhos e, estranhamente, parecias levitar. Apesar de tudo. Apesar da vida, apesar dos elementos que te compõem, apesar da cidade que te acolhe. De repente, e sem nada que o sustentasse ou deixasse antever, deixaste-te tombar as costas no colchão e sorriste. Sorriste como sorriem as crianças, desprevenidas e desesperadas, por não conseguirem conter a verdade que encerram. Não resisti e novamente te lancei uma questão, ainda imóvel, ainda quase absorto:
- Que é do rio que em ti corria?
Esgaçaste um riso fundo, gutural e perdeste o olhar. Soltaste duas gargalhadas inquietantes, respondendo-me:
- Ainda corre! Queres ver?
Acedi. Desterrei-me dos lençóis e dirigi-me para a tua beira. Estendi-te as duas mãos, lançaste-me as tuas. Agarrei-as e puxei-te para cima até estares novamente sentada. Beijei-te a testa, como se te respeitasse. Notei que a tua testa estava fria, dorida, incauta. Tremias. Disse-te:
- Vou buscar-te um cobertor.
Acedestes. Caminhei lentamente para a outra ponta da casa, na mala onde a minha avó guarda os cobertores e agasalhos. Escolhi um que me parecia o mais suave mas o mais envolvente. Dirigi-me ao quarto.
Quando lá cheguei, tinhas desaparecido, não havia um rasto físico que revelasse onde tinhas ido, como te tinhas arrastado para fora da minha casa. Tudo estava exactamente como eu o deixara. Mas tinha a certeza que tinhas passado por ali, ainda conseguia descortinar o teu sorriso demente na janela que te enquadrava nos raios de sol matinais, o teu corpóreo perfume ainda marcava a tua presença naquele quarto. No entanto…
Nunca mais te vi. Partiste da minha vida tão silenciosamente como apareceste. Ainda hoje não sei porque me marcaste, ainda hoje não sei se te amei. Sei que te possuí, sei que fui teu e dos dois nada mais reconheço. Conheci-te a vida como ninguém, mas não imagino o que te terá acontecido. Todos os que te sabiam parecem não se lembrar do teu rosto, da tua voz, a tua maneira de andar… Ninguém te pode ajudar!
Hoje não sei se desapareceste da minha vida ou se morrestes nos meus braços. Digo isto porque às vezes sinto o peso do mundo nos meus braços e só tu tens todo o peso do mundo em ti…
que nunca seque o rio
Posted by
x |
9/19/2005 8:42 p.m.
"Testa fria, dorida..." me lembra morte, mas tudo bem. Gostei do post, aliás, gosto do blog bem como do dono dele.
Beijinho. :]
Posted by
Karla S. |
9/20/2005 1:46 a.m.
Just_me: o rio não sei se secou, se é de água farto... mas ele há-de correr alugures.
Karla s.: não sei, não sei se me lembra morte se me lembra vida. Quanto ao blog e ao dono do blog, same here :)
Beijos
Posted by
Cabisbaixo |
9/20/2005 7:40 p.m.