terça-feira, janeiro 17, 2006 

Por aqui

Por aqui, só escrevo palavras tristes e frases soturnas. Porque aquilo que de melhor tenho, de mais feliz, hei-de escrevê-lo na tua boca, esgaçando-lhe um sorriso de palavras feito, hei-de escrevê-lo na tua pele, dando-lhe a cor que nela tem todas as outras, hei-de escrevê-lo nos teus olhos, onde o mar dos teus sonhos distantes deixará de correr.

segunda-feira, janeiro 16, 2006 

Cálidos, os passos que dás, inseguros como um voo doutrinado
De um pássaro, o serpentear de um corpo sáfico nas abadias do meu desejo.
Em tumulto pavoroso, os beijos despojados em tua boca preenchem,
Em dúvidas perenes, a tua memória minha, nos seixos deste rio pardo
Que trago nos sonhos quentes e nas palavras cruas, tuas.
Trago tua, na minha carne, a cor de teus lábios, submersa em mim
No trago ocidental, na pose de uns dedos, na prisão de uma ideia tua…

Rufus Wainwright, "Greek Song"

domingo, janeiro 15, 2006 

Settings Were Saved Successfully

Tenho dormido tanto que me esqueço de sonhar esta vida e a outra que hei-de ter, se a pudesse antever e sentir passar por entre os dedos. Tenho tanto sono quanto a vida que trago em mim e tantos sonhos como os sonhos que sonhados não me bastam, não se sentem. Como se fechasse os olhos e vivesse tão intensamente como se dormisse. Durmo e não sou eu, sonho e a vida pertence-me, ainda que de olhos perdidos…

quarta-feira, janeiro 11, 2006 

Logo

Como eu gostava de te saber escrever nestas páginas em que escrevo a minha vida, nestas folhas amarguradas sem uma sílaba que seja tua. E tu não escrevestes nelas o nosso ponto final nem nelas caíram as águas revoltas dos teus olhos, que às vezes te jorram pelas mãos e pelos braços e pelo corpo. Nelas não existem manchas do teu suor nem do teu sangue. Exangue quando comigo estás, não há sinal teu nestas folhas. Tampouco neste quarto e nesta casa, nesta rua e neste lugar…

“Logo” pareces dizer em cada canto em que me refugio… Mas eu não sei se é tempo e não sei se é lógica o tanto que me dizes. Talvez em ti signifique aquilo que nunca em mim foi…

sábado, janeiro 07, 2006 

Em de…

Sou um homem depressivo, decrépito, desalinhado, defeituoso, desinteressante, deformado, demente, desacreditado, dependente, desagradável, débil, degradado, demissionário, delirante, decepcionado, decadente, delapidado, defensivo, desalmado, deficitário, degenerado, delator, desastrado, descortês, degredado, delinquente, desafeiçoado, denegrido, deplorável e derrotado…

Desmemoriado, por não me lembrar de mais razões para tanta solidão…

quinta-feira, janeiro 05, 2006 

Shift

Sinto-te partir a cada hora, como se não tivesses partido há tanto tempo que nem me lembro, num tempo de que não lembro. Mas hoje levaste tudo o que tinhas ainda dentro de mim, o tanto que ainda restava de ti. Hoje partiste definitivamente…

As palavras de hoje ficarão como as últimas, por mais palavras que troquemos…

Julie Doiron, "Snowfalls in November"

 

Incapacidade

Vivo quase só, nesta incapacidade que me deste de sentir para além de ti…

terça-feira, janeiro 03, 2006 

Ténis

A minha imaginação não se compara com a tua. Ao menos, tu consegues ver-nos aos dois, pela beira daquele rio de prata. Eu só nos vejo como se fossemos um, como se existíssemos em paralelo… Unos e indivisíveis…

segunda-feira, janeiro 02, 2006 

Elástico

Por vezes, esticamos as nossas emoções até um limite irresponsável, como se tudo nos fosse possível, inteiramente plausível. Como se até os sonhos fossem só feitos de materialidade acoplada à vontade. Como se fossem realizáveis, todos eles. Desenganem-se! As possibilidades são poucas, tão limitadas por um querer humano decrépito, desolador até… E os sonhos são tão efémeros quanto a minha religiosidade.

Para um optimista, a vida vale pelos sonhos que sonha e não pela vida que vive. Para um pessimista tudo vale a pena, desde que borrado pela impossibilidade não verificada, pelo obstáculo que não se tornou factual. Para mim a vida vale os que os olhos vêem e os ouvidos ouvem e a pele sente. É como se valesse a pena viver…

domingo, janeiro 01, 2006 

Retomar

Afastei-me deste meu espaço para reflectir que sentido fazia na minha vida que continuasse a escrever por aqui. Senti que tinha que pensar seriamente o que queria fazer neste ano que agora começa. E se isso se coadunava com blogs e com este em particular. Às vezes sinto que tenho que o matar, que tenho que me desfazer dele. Porque há dias em que não faz sentido, em que me parece demasiado distante daquilo que sou, daquilo que quero ser… Mas depois penso que ninguém me conhece, nem mesmo eu. Eu não sei o que sou, nem o que quero, nem para onde vou. E isso alivia-me, protege-me de mim…

Eu sei que ponho esta dúvida vezes demais, por razões disparatadas. Porque sinto que deve estar longe, esta parte de mim. Mas concluo que é só mais uma parte disparatada, em nada diferente de todas as outras. E que deve ter tanto lugar como as outras. Para já, não me desfaço dele, mas não sei por quanto tempo. E eu não sei o que fazer ao tempo em que não tenho tempo para mim…

Este blog é a minha tristeza, é a minha forma de estar sozinho. Que não me chega, pois preciso mais e mais da minha escrita. Por isso, decidi desafiar uma amiga bloguiana para um projecto: falarmos de música, uma das nossas grandes paixões em comum. Uma experiência transatlântica. Era uma coisa que queria fazer há algum tempo e que me foi despertada por esta e por esta experiência. A ela o devo e a ela o agradeço. Mas agradeço também a amizade e o apoio que me tem dispensado desde Agosto. E, já agora, a boa disposição, a conversa e as musiquinhas.

Por isso, vou escrever com alguma regularidade no Barulhinho Bom (um excelente disco de Marisa Monte) e expor o que penso da música. Eu, pelo menos, não tenho a intenção que seja um espaço de crítica ou de apresentação de novidades. Se bem que vá haver espaço para isso. Mas é, isso sim, um espaço para falar dos sentimentos que a música me desperta, daquilo que oiço e das minhas histórias à volta da música. E que seja um espaço mais descontraído do que este.

E que 2006 seja um grande ano… para todos os que por aqui passam…

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