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domingo, dezembro 18, 2005 

Mestre

Quando acabei a licenciatura – tinha então 22 anos – fui convidado para trabalhar com a maior referência naquela área do nosso país. Não tinha sido meu professor, mas conhecia-o das reuniões do Conselho Pedagógico e tinha dele a ideia de um homem divertido, condescendente, experiente e conciliador. Sabia que era tecnicamente irrepreensível. Aceitei.

Vim a descobrir que é muito mais do que isso. Comecei como assessor dele na nossa área de estudo e criamos um gabinete. Ele era o responsável, eu o executante. E aprendi com ele os truques, as manhas, a escrever melhor (devo-lhe imenso neste capítulo). Quando achou que eu estava preparado, propôs que eu chefiasse o gabinete e que se contratassem pessoas para que a estrutura crescesse. Eu tinha 24 anos, acabados de fazer. Tinha confiança em mim, dizia-me. Que eu estava preparado para o essencial e que o resto vinha com o tempo. Ainda assim, pus uma condição para aceitar o cargo: tinha de ser meu conselheiro. Ele aceitou.

Passado pouco tempo, foi convidado para ser Director da instituição. Convidou-me para assessor da Direcção, acumulando os cargos. E argumentei que não podia, que tinha muito trabalho e muitas responsabilidades. Disse-me: “Está na altura de começares a ver outras coisas, de abrires a tua vida a outras experiências. Vai fazer-te bem”. Obviamente aceitei, trabalhando muito, mas aprendendo imenso nos trabalhos que executei para ele e nas reuniões que assisti.

Naqueles quatro anos de trabalho em conjunto, protegeu-me quando errei – e errei muito – obrigou-me a pôr os pés no chão quando os sucessos apareceram. Porque os sucessos desaparecem num instante e os problemas recomeçam no momento seguinte.

Hoje, por contingências da vida, nem eu nem ele trabalhamos naquela instituição. A mim custou-me sair, a ele custou-lhe muito mais. 41 anos de trabalho… e a vida toda dedicada às pessoas que por lá passaram e que o admiram. Sem excepção.

Mas mais do que isto, ele foi um exemplo de humanidade para mim. Com ele refreei as minhas fúrias, os meus repentes; aprendi a compreender os meus adversários e a ser justo para com eles. Que o sentido de humor pode ser utilizado em qualquer situação, sem perdermos a face. E que a humildade é o atributo principal de quem quer ser maior, porque é a única atitude que garante que o conhecimento nos surpreende todos os dias, que nos faz evoluir todos os dias. Mas acima de tudo, ensinou-me que sou muito novo para tudo aquilo que quero fazer e que a vida se encarregará de me mostrar os caminhos que tenho de seguir, sem pressas e atropelos.

Eu ensinei-lhe outras coisas: a gostar de Faith No More e Cebola Mol. Com a idade que tinha, adorava aquilo que eu tinha para lhe contar e sempre quis aprender comigo o pouco que tinha para lhe ensinar. E isso foi das mais importantes lições de vida que recebi: todas as pessoas têm algo para nos ensinar…

Disse-me muitas vezes que eu era o último dos seus discípulos, que não aceitava preparar mais ninguém de forma tão próxima. E isso enchia-me (e enche-me) de orgulho. Quando me dizem que tive sorte na vida, penso sempre nele.

Um obrigado profundo por tudo, Mestre. E parabéns. Setenta anos não se fazem todos os dias…

Está lindo, verdadeiramente poderoso... Fiquei boquiaberta, quando recuperar, tento dizer mais alguma coisa digna de nota perante tão terno e perfeito texto. Homenagem deliciosa.
Beijo

Intimidade indecente: esta homenagem a um Homem tão grande é minuscula, ele ensinou-me tanto que é impossível descrever... Mas a melhor homenagem que lhe posso prestar-lhe é telefonar-lhe, saber como está e não resistir... vou ter com ele na 3ª feira à noite, beber chá. E não te preocupes, as tuas palavras são sempre belas... Mas estás à vontade para escreveres o que quiseres. O blog é meu, mas as caixas de comentários são de quem a apanhar... :P

Pachita: Tentei o melhor que sabia, mas ainda é pouco. É bom contactarmos durante a nossa vida com pessoas que sáo rectas e generosas...
Quanto ao código: old habits die hard :P. Tens que treinar mais...

Beijos...

Na minha opinião algumas pessoas marcam as nossas vidas, algumas pela generosidade, outras pelo exemplo... As que ficam connosco para sempre são aquelas que se fizeram parte de nós com o que nos ensinaram. É uma sorte ter um Mestre assim e através das tuas palavras, como o descreves, mesmo sem o conhecer vejo que é alguém que merece este post (e como tu dizes, muito mais...)

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