Mestre
Quando acabei a licenciatura – tinha então 22 anos – fui convidado para trabalhar com a maior referência naquela área do nosso país. Não tinha sido meu professor, mas conhecia-o das reuniões do Conselho Pedagógico e tinha dele a ideia de um homem divertido, condescendente, experiente e conciliador. Sabia que era tecnicamente irrepreensível. Aceitei.
Vim a descobrir que é muito mais do que isso. Comecei como assessor dele na nossa área de estudo e criamos um gabinete. Ele era o responsável, eu o executante. E aprendi com ele os truques, as manhas, a escrever melhor (devo-lhe imenso neste capítulo). Quando achou que eu estava preparado, propôs que eu chefiasse o gabinete e que se contratassem pessoas para que a estrutura crescesse. Eu tinha 24 anos, acabados de fazer. Tinha confiança em mim, dizia-me. Que eu estava preparado para o essencial e que o resto vinha com o tempo. Ainda assim, pus uma condição para aceitar o cargo: tinha de ser meu conselheiro. Ele aceitou.
Passado pouco tempo, foi convidado para ser Director da instituição. Convidou-me para assessor da Direcção, acumulando os cargos. E argumentei que não podia, que tinha muito trabalho e muitas responsabilidades. Disse-me: “Está na altura de começares a ver outras coisas, de abrires a tua vida a outras experiências. Vai fazer-te bem”. Obviamente aceitei, trabalhando muito, mas aprendendo imenso nos trabalhos que executei para ele e nas reuniões que assisti.
Naqueles quatro anos de trabalho em conjunto, protegeu-me quando errei – e errei muito – obrigou-me a pôr os pés no chão quando os sucessos apareceram. Porque os sucessos desaparecem num instante e os problemas recomeçam no momento seguinte.
Hoje, por contingências da vida, nem eu nem ele trabalhamos naquela instituição. A mim custou-me sair, a ele custou-lhe muito mais. 41 anos de trabalho… e a vida toda dedicada às pessoas que por lá passaram e que o admiram. Sem excepção.
Mas mais do que isto, ele foi um exemplo de humanidade para mim. Com ele refreei as minhas fúrias, os meus repentes; aprendi a compreender os meus adversários e a ser justo para com eles. Que o sentido de humor pode ser utilizado em qualquer situação, sem perdermos a face. E que a humildade é o atributo principal de quem quer ser maior, porque é a única atitude que garante que o conhecimento nos surpreende todos os dias, que nos faz evoluir todos os dias. Mas acima de tudo, ensinou-me que sou muito novo para tudo aquilo que quero fazer e que a vida se encarregará de me mostrar os caminhos que tenho de seguir, sem pressas e atropelos.
Eu ensinei-lhe outras coisas: a gostar de Faith No More e Cebola Mol. Com a idade que tinha, adorava aquilo que eu tinha para lhe contar e sempre quis aprender comigo o pouco que tinha para lhe ensinar. E isso foi das mais importantes lições de vida que recebi: todas as pessoas têm algo para nos ensinar…
Disse-me muitas vezes que eu era o último dos seus discípulos, que não aceitava preparar mais ninguém de forma tão próxima. E isso enchia-me (e enche-me) de orgulho. Quando me dizem que tive sorte na vida, penso sempre nele.
Um obrigado profundo por tudo, Mestre. E parabéns. Setenta anos não se fazem todos os dias…
Vim a descobrir que é muito mais do que isso. Comecei como assessor dele na nossa área de estudo e criamos um gabinete. Ele era o responsável, eu o executante. E aprendi com ele os truques, as manhas, a escrever melhor (devo-lhe imenso neste capítulo). Quando achou que eu estava preparado, propôs que eu chefiasse o gabinete e que se contratassem pessoas para que a estrutura crescesse. Eu tinha 24 anos, acabados de fazer. Tinha confiança em mim, dizia-me. Que eu estava preparado para o essencial e que o resto vinha com o tempo. Ainda assim, pus uma condição para aceitar o cargo: tinha de ser meu conselheiro. Ele aceitou.
Passado pouco tempo, foi convidado para ser Director da instituição. Convidou-me para assessor da Direcção, acumulando os cargos. E argumentei que não podia, que tinha muito trabalho e muitas responsabilidades. Disse-me: “Está na altura de começares a ver outras coisas, de abrires a tua vida a outras experiências. Vai fazer-te bem”. Obviamente aceitei, trabalhando muito, mas aprendendo imenso nos trabalhos que executei para ele e nas reuniões que assisti.
Naqueles quatro anos de trabalho em conjunto, protegeu-me quando errei – e errei muito – obrigou-me a pôr os pés no chão quando os sucessos apareceram. Porque os sucessos desaparecem num instante e os problemas recomeçam no momento seguinte.
Hoje, por contingências da vida, nem eu nem ele trabalhamos naquela instituição. A mim custou-me sair, a ele custou-lhe muito mais. 41 anos de trabalho… e a vida toda dedicada às pessoas que por lá passaram e que o admiram. Sem excepção.
Mas mais do que isto, ele foi um exemplo de humanidade para mim. Com ele refreei as minhas fúrias, os meus repentes; aprendi a compreender os meus adversários e a ser justo para com eles. Que o sentido de humor pode ser utilizado em qualquer situação, sem perdermos a face. E que a humildade é o atributo principal de quem quer ser maior, porque é a única atitude que garante que o conhecimento nos surpreende todos os dias, que nos faz evoluir todos os dias. Mas acima de tudo, ensinou-me que sou muito novo para tudo aquilo que quero fazer e que a vida se encarregará de me mostrar os caminhos que tenho de seguir, sem pressas e atropelos.
Eu ensinei-lhe outras coisas: a gostar de Faith No More e Cebola Mol. Com a idade que tinha, adorava aquilo que eu tinha para lhe contar e sempre quis aprender comigo o pouco que tinha para lhe ensinar. E isso foi das mais importantes lições de vida que recebi: todas as pessoas têm algo para nos ensinar…
Disse-me muitas vezes que eu era o último dos seus discípulos, que não aceitava preparar mais ninguém de forma tão próxima. E isso enchia-me (e enche-me) de orgulho. Quando me dizem que tive sorte na vida, penso sempre nele.
Um obrigado profundo por tudo, Mestre. E parabéns. Setenta anos não se fazem todos os dias…
Está lindo, verdadeiramente poderoso... Fiquei boquiaberta, quando recuperar, tento dizer mais alguma coisa digna de nota perante tão terno e perfeito texto. Homenagem deliciosa.
Beijo
Posted by
Rita |
12/18/2005 3:57 p.m.
Intimidade indecente: esta homenagem a um Homem tão grande é minuscula, ele ensinou-me tanto que é impossível descrever... Mas a melhor homenagem que lhe posso prestar-lhe é telefonar-lhe, saber como está e não resistir... vou ter com ele na 3ª feira à noite, beber chá. E não te preocupes, as tuas palavras são sempre belas... Mas estás à vontade para escreveres o que quiseres. O blog é meu, mas as caixas de comentários são de quem a apanhar... :P
Pachita: Tentei o melhor que sabia, mas ainda é pouco. É bom contactarmos durante a nossa vida com pessoas que sáo rectas e generosas...
Quanto ao código: old habits die hard :P. Tens que treinar mais...
Beijos...
Posted by
Cabisbaixo |
12/18/2005 8:12 p.m.
Na minha opinião algumas pessoas marcam as nossas vidas, algumas pela generosidade, outras pelo exemplo... As que ficam connosco para sempre são aquelas que se fizeram parte de nós com o que nos ensinaram. É uma sorte ter um Mestre assim e através das tuas palavras, como o descreves, mesmo sem o conhecer vejo que é alguém que merece este post (e como tu dizes, muito mais...)
Posted by
Meia Lua |
12/18/2005 8:26 p.m.