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terça-feira, outubro 11, 2005 

E entre nós a chuva corria oblíqua, entre nós tudo era perfeito

Então agarraste-me na mão, seguraste-a como se possuísses todas as forças físicas e químicas do mundo na palma da tua. Murmuraste-me ao ouvido, mordeste-me a orelha:

- Vem. Vamos.

- Mas chove, tudo se precipita sobre mim em cada segundo que contigo partilho. As minhas algibeiras não são tão ricas quanto podes supor, não tenho amor que te concentre.

- Receias-me? Algo te prende à vida? Quem te prende à vida? Quem te articula a noite, que te disse que se lhe seguiria o dia?

Depois destas afirmações segui-te, prensado entre o medo de ser feliz e a alegria de ter um amanhã que seria no dia anterior, por qualquer razão que naquela altura desconhecia. Hoje sei que todo o tempo presente é pura imaginação, pura saudade de o tempo que existe à nossa frente, mas que se projecta atrás de nós, vã glória de viver.

E lá fora chovia, chovia muito. Tanto que nos servia de consolo, de vestes tenras, de traça larga. E entre nós a chuva corria oblíqua, entre nós tudo era perfeito, torrencialmente perfeito. E erótico. Nos corpos molhados um do outro, sem nos tocarmos já nos sentíamos, já estávamos em êxtase. E isso bastava-me naquela tarde, plena de sangue, até que me disseste:

- Vamos para minha casa, junto aos lilases que nos esperam?

Acedi. Fui.

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