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quinta-feira, agosto 11, 2005 

A Educação de Max Bickford

Hoje é, para mim, um dia de ócio. O sono já o recuperei, pelo menos já não tenho pálpebras a pesarem toneladas às dez e meia da noite. Não dormi durante o dia, mas também não fiz nada de realmente produtivo. Têm sido assim os meus dias, torturados por vontade tediosa e amorfa, que me deixa escrever, mas que não me deixa ler, que me deixa sentir, mas não me deixa ouvir.

Preparo-me para que o resto da noite seja uma cópia fiel do dia. Pus um CD de Perry Blake a tocar – neste caso escolhi o “Still Life”, um disco narcotizante, que me adormece a alma, que me angustia, mas que me deixa perceber que sou mais feliz que o autor, embora ele não o suspeite! – abri a janela do meu quarto para que entre o vento justo. O vento justo não é mais do aquele que deve entrar para tornar o ambiente perfeito: nem uma brisa a mais, nem temperatura a menos. Acho que o vento me deve uns dias de temperança… hoje pagará uma parte da dívida, sem dúvida.

Escrevo este texto enquanto espero que comece a série que passa agora no Canal 2, ás onze e meia: “A Educação de Max Bickford”.

“A Educação de Max Bickford” é uma série que já passou há uns tempos pelo mesmo canal, relativamente à mesma hora. E desde esse tempo que me tem fascinado. Não pelas interpretações, não porque tem mulheres bonitas (porque as tem, como a Marcia Gay Harden), nem pelos dramas sociais (porque não os tem). Fala tão somente da vida de um professor universitário, 50 anos, víuvo, pai de dois filhos distantes em idade. E fala da missão que ele sente a ensinar História Americana numa universidade destinada exclusivamente a mulheres.

Ora, é isto mesmo que tem motivado o meu seguidismo, a missão de ensinar. Posso resumir o que sinto em poucas palavras: quero ser como Max Bickford. Ou pelo menos quero ter algumas das suas virtudes. O saber levantar cada problema da forma correcta pelo prisma que lhe for mais problemático, o saber motivar os alunos a discutirem um tema pela importância que detém para as suas vidas, saber resumir as ideias de forma pungente mas não as transformando em verdades absolutas. Também porque não as há. Max Bickford sabe disso.

Max Bickford sabe outras coisas. Sabe que ensinar e educar é a maior responsabilidade de todas. Ensinar não é dar certezas, não é facilitar a vida. É mostrar como se pode conhecer, como as certezas nos são adversas, como a vida não é fácil, como o conhecimento nos pode aliviar dos fardos que nos foram dados pelos Deuses. Sabendo isso, já sabemos alguma coisa. Max Bickford sabe também que a raça humana é limitada mas esforçada, presunçosa mas corajosa, ignorante mas ávida de conhecimento. E isto já é mais qualquer coisa.

Obviamente a representação monumental de Richard Dreyfuss dará uma tonalidade azul àquilo que sinto. Está a representar um papel, um bom papel. Mas não estamos todos? Se representamos o papel de professor, de marido, de surfista, de vizinho, façamo-lo bem, da forma competente, ainda que nos custe a moldá-lo. E Max Bickford fá-lo bem, Richard Dreyfuss fá-lo bem. Cada um na sua personagem.

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