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terça-feira, agosto 09, 2005 

Arroz de Feijão

Hoje dormi 11 horas. Acho que me desforrei. Desde quarta-feira que não o fazia convincentemente. Deitei-me cedo, só com vontade de adormecer, de dormir, de esquecer, de aliviar. Resultou. Talvez à primeira vista, mas não prometi a mim mesmo esquecer. Mas também não me comprometi a lembrar… embora o faça. Faço-o como se estivesse no cinema, sozinho: as imagens passam mas eu não tenho um comando para baixar o volume, para parar o filme, para o fazer avançar mais depressa ou devagar, conforme me apeteça. Sujeito-me à minha emoção cinematográfica…

Quando acordei deste sono pesado, a minha mãe estava ao pé da minha cama. E ela hoje está resplandecente, está tão bonita, tão doce. Perguntou-me “Dormiste bem?”. Acenei com a cabeça que sim. Ela atirou: “Ainda bem! Queres vir beber um café comigo?”. Disse-lhe que sim. E lá fomos, sem trocarmos muitas palavras, mas sendo os companheiros que somos um do outro desde que me concebeu. Deixou-me ler o “Record” sem me dizer uma palavra, sem se aborrecer. Demorei meia hora. Acho que ela sabe que quando durmo muito fico dentro de mim o dia todo… Por isso respeita-me no silêncio, mas acompanha-me, dá-me a mão e leva-me pelo passeio.

Voltei do café, tomei banho e preparei-me para trabalhar. Mas não consigo. São os amigos no messanger, o telefonema para ir à praia (mas que raio, está um dia horrível!), o convite para o café logo à tarde, o convite para jantar. Talvez amanhã… Hoje não. Quero ler o livro e ouvir o CD que comprei este fim-de-semana, ininterruptamente e sem desculpas. Hoje nasci sem ambição.

Enquanto lia e trocava umas mensagens, cheirou-me a algo familiar: arroz de feijão. A minha mãe acertou em cheio no almoço. O arroz espesso, com feijão (não sei de que tipo será) em barda, amontoado, sisudo. Deixei todas as conversas para trás, o livro e dei os dez passos indispensáveis. Sentei-me, ainda calado, e pus arroz no prato. Esqueci-me do resto. E comi. Soube-me como um poema de Caeiro: simples, sem sentido mas directo ao meu coração. Acho que me aqueceu e me fez refastelar no sofá, querendo ser eu próprio, outra vez. Só isso me anima, só isso me agita!

O que farei durante a tarde? O que farei de noite? Não tenho a certeza. Acho que só quero existir. Podem mandar vir um pouco de vida sem mais, sem sentimentos, sem emoção? Só quero quietude no sentir, encostar a minha cabeça no meu sofá azul e olhar no vazio, sem nada no coração, sem pensamento que me atormente a alma ou que me dê uma esperança de uma vida melhor.

Pensando melhor, queria ter o meu sofá azul aqui ou aqui. São espaços onde fui tão feliz. Queria ser feliz mais vezes…

Acho que devia comer arroz com feijão durante toda a vida.

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