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quarta-feira, agosto 10, 2005 

Numa sala qualquer

Hoje dormi mais ainda. Não sei o que se passa, pode ser só cansaço. Poderá ser só o retomar de uma vida normal…

Pode ser também a minha maneira de me aliviar da desilusão. Durmo impávido, despreocupado comigo, de sono profundo, de sentidos fechados ao mundo e a mim próprio. Nem os aviões que raspam os telhados do meu bairro me incomodam. Quando adormeço parece que perco os sentidos, o coração, o cérebro, as pernas, os braços… não vou a lado nenhum. Mesmo na minha forma metafísica não sou nada, não sou ninguém, não busco nada, não vou a lado nenhum.

Tenho procurado todas as formas de varrer todas as ideias da minha cabeça e todo o aperto do coração. Mas não consigo. Não estou suficientemente lúcido, não sou suficientemente forte, não sou suficientemente suficiente para tudo aquilo que passou pelo meu corpo e alma. Não sou! Não sou. Não sou…

Hoje acordei desejante! E o desejo é meu, mas não o controlo, não o afasto. Propositadamente. Sem ele, o que me restará? Desejo tudo aquilo que não posso ter, tudo aquilo que já não faz mais sentido. Mas o meu desejo é macio e suave. O meu desejo é perfumado e imenso… mas é longínquo, é inacessível, é sonho…

Desejo abraçá-la, envolvê-la nos meus braços. Profundamente, como só os amantes celestiais sabem fazê-lo. Sem se tocarem, mas a sentirem-se completamente.

Desejo ter a cabeça dela no meu colo, eu sentado, ela deitada, os dois num sofá de uma sala qualquer, com móveis de madeira escura, um sistema de som – bom, como convém – e duas velas em pontas opostas. Duas como nós os dois. Dois copos de vinho tinto Romeira. E uma lareira, com lenha a crepitar, a aquecer o ambiente. Se o conseguir aquecer mais, se o conseguir tornar mais acolhedor...

No sistema de som passa “North”, de Elvis Costello. Oiço-o três vezes por ano, em alturas muito especiais, em alturas em que estou comovido. Acho que é a melhor escolha. Passo-lhe as mãos pelos cabelos, como se lhe moldasse as ondas do mar, como se tivesse participado na sua concepção. Só para a fazer sentir bem. É assim que eu também me sinto bem.

E falamos do que ouvimos, do que sentimos, daquilo que nos fascina, daquilo que nos atormenta, dos livros que lemos, das músicas que ouvimos, das outras vidas que vivemos. Não temos limites para as categorias “espaço” e “tempo”. Elas pertencem-nos. Nós seduzimo-las.

Depois disto, bebemos um pouco de vinho e leio-lhe o meu livro preferido. Chama-se “A Confissão de Lúcio”, de Mário de Sá Carneiro. Este livro, apesar da minha tenra idade, exerce um fascínio sobre mim há doze anos. E de cada vez que eu o leio, mais fascinado fico. Fala de amizade, de amor, de sexo, de imaginação perturbada, de sentimentos profundos. Faz-me lembrá-la.

Ao fim de trinta páginas ela adormece. O resto fica para amanhã. E para depois. E para depois, apesar de ser um livro pequeno. A música também acabou, mas não me atrevo a levantar-me, não a quero acordar. Quero tê-la a dormir no meu colo toda a noite, sem mais… acho que me acalma o desejo, acho que me completa, acho que me realiza! Sem mais…

Acho que hoje vou à praia para que o Sol me abrace…

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