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sexta-feira, novembro 11, 2005 

Adelino

Tenho uma avó muito especial. É feiticeira. As pessoas a quem o digo nunca acreditam. Até que a conhecem. Depois acreditam…

Mas ela é mais do que isso. Foi a mulher do meu avô. Do meu avô! Festejam o aniversário de casamento no dia em que nasci. E em todos os meus aniversários ela me lembra isso. Como se eu tivesse vindo ao mundo para os presentear. Eu acho que sim…

Hoje, a caminho de casa, lembrei-me do meu avô, mais uma vez. Sem motivos ou razões aparentes. Lembro-me dele quase todos os dias e ele vê-me todos os dias no sítio onde está.

Ele morreu tinha eu três anos e sete dias. Foi há já muitos dias, muitos meses. Mas lembro-me do seu rosto como se o tivesse visto ontem. Porque o vi três semanas antes de morrer, pelo Natal. Cheguei a casa dele e estava um frio imenso. Ele partia pinhões para um primo meu, sentados num tronco de árvore. Um pinhão para cada um. E depois cheguei eu e ele continuou a partir pinhões, um para cada um. Mas agora éramos três. E ali estivemos uma tarde inteira. A morte levou-o poucos dias depois, sem que ele esperasse. Ou qualquer um de nós.

É a única lembrança que tenho dele. Não me lembro da voz dele, nem das suas expressões. Mas lembro-me das suas feições e da sua roupa. Lembro-me de uma corrente que tinha no bolso do casaco e que sempre me intrigou. Hoje sei que é do relógio de bolso que a minha avó esconde na bata. E esta imagem que guardo dele é tão viva, tão real, que ás vezes parece que lhe toco.

Tenho mais uma recordação, a melhor recordação que ele me poderia deixar. A minha mãe. E ele vive no sorriso dela, em cada olhar que ela nos deita durante a noite, para ver se dormimos bem, a mim e ao meu irmão. E de cada vez que nos procura para nos dar um beijo, um carinho. Um dia perguntei-lhe: “Sentes a falta do avô?”. Olhou-me nos olhos, com aquela candura que só ela tem e disse-me: “Tenho muitas saudades, que aumentam todos os dias.”

E eu também tenho muitas saudades tuas, avô…

são as lembranças que nos mantêm vivos. :) *

E é na nossa lembrança que os outros vivem... O meu avô vive pelos meus olhos.

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